terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Poesia contemporânea brasileira - Liz Rabello




POESIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA 

Por Liz Rabello


A vida sempre nos surpreende... Encontra-se em constante mudança.

Vivemos uma época de novos valores. A era Gutemberg ficou para além

do século passado. O livro impresso perece de morte? Diante de tantos

livros digitais a resposta poderia parecer óbvia demais, até porquê nós

nos pegamos a ler muito mais pela Internet do que dentro das folhas

viradas. Há de se culpar o conhecimento que nos alça novos voos? Há

de se querer voltar páginas de livros antigos? Há de se ter a sensação

desagradável de vivermos lá atrás, na contramão do curso da História?

É possível fugir ao próprio tempo?

Tenho o hábito de gostar do olho no olho, ir ao Banco, puxar uma

cadeira e conversar com minha gerente. Diálogo honesto, sincero, nós

nos tornamos amigas. Poderia ter telefonado? Afinal um celular à mão

resolve tudo, com rapidez maior, mais eficiente. Mas nenhuma

tecnologia substitui o diálogo de mãos que se apertam. Assim é com o

livro. Meu olho desvendando letras, mistérios de outros corpos, de

outras mentes, descobertas de sentimentos inusitados. No entanto,

percebo nos adolescentes um desejo cada vez maior de se comunicar

pela telinha. Passei pela experiência de observar duas jovens

conversando pelo Face book... Até aí nada de novo, a não ser que

estavam uma ao lado da outra, na mesma Sala de Informática, em dois

computadores diferentes!

Espelho, espelho meu, quem é mais feia do que Eu? Não, nunca me

achei feia, nem mesmo bela. Qual a visão de mim mesma? Por mim?

Na ausência de espelhos, numa infância muito pobre, como conseguia

me saber? Penso que sempre me vi pelos olhos úmidos de emoção de

meu pai. Era puro amor, encantamento! A mais bela imagem refletida.

Por suas palavras doces e elogios tinha uma fotografia de mim mesma

muito agradável e segura. Sentia-me com pés no chão, mais brilhante

como a mais bela estrela. Foi assim comigo, mas não é o mesmo com os

mais jovens. Hoje o espelho substitui o olhar do outro.

No colégio em que trabalho existe um elevador. Às vezes é impossível

usá-lo, porque fica parado no primeiro andar, para que os alunos

possam mirar-se ao espelho. Fila indiana para a visita ao psicólogo: o

complexo de Narciso em alta. Não são mais águas de um lago, são

espelhos mesmo. Na impossibilidade, serve qualquer outro meio: o

celular está de bom tamanho. Flashes e flashes no intervalo inteiro, por

vezes até durante a aula, com direito a boquinhas de Angelina Jolie ou

dedos em sinal de paz.

Cada meio de comunicação nascido revela forças interiores de outros

meios. Percebo nos adolescentes que o celular é um brinquedinho, se

fotografam, se escrevem mensagens, se procuram. Trocam celulares

uns dos outros, para se “olharem” mutuamente. Um ao lado do outro.

Pego meus meninos se alimentando de auto-imagem narcisista, muito

mais do que se comunicando com os outros. O celular, o MP3, o tablet,

são extensões de seus próprios corpos. O livro impresso é um elemento

antigo. Representa o passado. E eles se vestem de presente.

Toda tecnologia nasce para nos inflamar de mais poderes. Supera

limites do corpo humano. O tablet substitui o caderninho de notas, o

teclado do computador substitui a máquina de datilografia, que por sua

vez é uma possibilidade de extensão de dedos, que com o auxílio de

canetas, lápis, cadernos escrevem nosso mundo interior. No entanto,

nenhum programa de computador, nenhuma imagem, nada,

absolutamente nada, existe sem o toque do ser humano. O homem é a

essência! E neste fluxo, de dentro para fora de seu mundo interior está

a poesia contemporânea.

Certa vez decidi trazer para a rotina da sala de aula poemas inéditos.

Não dos mestres: Cecília Meirelles, Carlos Drummond, Pablo Neruda.

Que poetas assim, tão conhecidos, já são declamados demais. O projeto

da Escola era Humanizar o Jovem no mundo da Tecnologia. A

proposta chegou rápida: Vamos pesquisar poetas anônimos. Descobrir

caminhos novos. E num repente, junto com os adolescentes, Luciana

Dimarzio, a minha frente:

“Brotam-me palavras

puras

cruas

nuas

para vesti-las a meu bel prazer

(fatigo-me das roupas emprestadas)”

Esta poetisa, cuja família está em primeiro lugar, mora em Campinas,

São Paulo, e seu talento com as palavras se revela num maravilhoso

livro de poemas e frases Reversos (in) Versos, pela Editora Braspor,

publicado em Dezembro de 2012. Em março do ano seguinte já foi

laureada com o prêmio Mulher Destaque na Literatura pelo CPAC

(Centro de Poesias e Artes de Campinas). Em maio deste ano recebeu o

prêmio Troféu Staff de Ouro 2013 pelo destaque cultural. Mas quando

a conheci pela Internet, era apenas a Lu do Face book, a Luciana do

Canto da Lu, com um Blog gostoso de ler, já mostrando um talento

insuperável com as palavras, que a fez conquistar permanentemente a

Cadeira número dois da Academia Nacional de Letras Portal do Poeta

Brasileiro.

“Escrever é transformador. Sempre que me converto em palavras já

não sou a mesma. A cada metamorfose, sinto-me não

necessariamente melhor, porém mais inteira.”

(Luciana Dimarzio)

(...)

(Liz Rabello In Poesia Contemporânea Brasileira, Editora Iluminatta,

2014)


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